sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Frustração na infância: vivência necessária a um desenvolvimento psicológico saudável

Desde o primeiro dia de gestação, os pais são acompanhados diariamente por mudanças que, quase sempre, geram desequilíbrio e consequentemente adaptação. Esse início pode ser percebido, também, como um sinal de que, a partir de então, além da pretensa intuição materna e paterna, muitos conhecimentos terão que ser adquiridos e colocados em prática para o pleno desenvolvimento da criança e para o bem estar da família. Quando a família começa a adaptar-se com as novidades de uma fase, surgem outras que indicam novas mudanças e, novamente, a ampliação do repertório comportamental dos pais.

Uma das fases que pode ser bastante difícil de ser vivenciada é o período da segunda infância (3 aos 6 anos de idade), onde as crianças necessitam ganhar cada vez mais autonomia, começam a expressar-se com mais clareza e reivindicar seus desejos com maior insistência. Como consequência, são apresentadas demandas cada vez mais complexas aos pequenos, entre elas, ter que atender às pequenas responsabilidades impostas pela escola, a necessidade de aprender a executar os comportamentos de autocuidado que antes eram feitos pelos pais e o desenvolvimento de habilidades sociais.

Frustrações importantes serão vivenciadas nesse momento, e dessa vez, o desequilíbrio e a adaptação também deverão fazer parte da rotina da criança. A frustração pode ser entendida como um sentimento relacionado à dificuldade ou incapacidade de conseguir alcançar o objetivo que se propôs e pelo qual se esforçou. Por exemplo, quando a criança for colocada diante da primeira vez em que deve vestir-se sozinha, ou ter que compreender que o que ela quer seus pais não poderão lhe dar, que ela perdeu e o amigo ganhou, ou ainda, quando ela está com dificuldade para aprender a escrever as letrinhas do seu nome. São frustrações importantes, pois o modo como a criança aprende a responder à elas, seja adequado ou não, pode tornar-se parte de seu repertório comportamental, e esse tipo de resposta pode continuar sendo emitida em outras fases da vida, como na adolescência e idade adulta. As tentativas para superar as demandas às quais ela está sendo exposta, podem ser determinantes no modo de reação da criança diante de novas situações frustrantes. Estas situações são marcadas por novas aprendizagens e autonomia, mas também por comportamentos de irritabilidade, choro, medo de não conseguir e esquiva que é a tentativa de não vivenciar a situação, para isso, a criança pode solicitar que os pais façam por ela, ou adotar estratégias que a impedirão de entrar em contato com a situação frustrante, por exemplo, fazer bagunça na sala de aula nos momentos de aprender a ler e escrever.

O modo como os pais reagirão à criança pode favorecer ou não à superação das demandas e à exposição e persistência diante de novas situações que exijam esforços e diversas tentativas. Motivar a criança a tentar, auxiliando-a e não a deixando desistir, pode favorecer o aumento da resistência diante da frustração, o que pode indicar que a criança não desistirá facilmente diante das dificuldades, ganhará autonomia e amadurecimento e terá maior possibilidade de vivenciar as fases do desenvolvimento psicológico infantil de modo adequado.

Para alguns pais pode ser difícil reforçar na criança o comportamento de persistir, diante do “sofrimento” que ela demonstra. Em algumas situações os pais deixam de possibilitar ao filho essa experiência, por exemplo, fazendo aquilo que poderia ser feito pela criança. Sena (2012) relata que não é possível controlar quais genes serão passados para os filhos e, em termos de constituição biológica, quais são os gatilhos bons ou não tão bons que estão prontos para serem disparados, porém, podemos “no dia-a-dia, dentro de casa, nas experiências cotidianas da família, selecionar ambientes e experiências aos quais queremos expô-los ou não” para poder assim, favorecer a saúde psicológica. Por isso, é importante que os pais tenham conhecimento do que se pode esperar da criança em cada etapa do desenvolvimento biopsicológico, para não deixar a criança com atrasos ou expô-la a situações que ainda são inadequadas para ela. Para isso, se necessário, os pais devem consultar alguns profissionais, como pediatras, psicólogos, pedagogos e fonoaudiólogos. O conhecimento pode ajudar os pais a sentirem-se mais seguros em relação ao que e ao modo como a criança deve vivenciar cada etapa.

O desequilíbrio e a adaptação estendem-se a todas as etapas da vida e para um desenvolvimento psicológico saudável é necessário que as frustrações não sejam evitadas e sim vivenciadas com auxilio, suporte emocional e compreensão.

Referência:

SENA. L; M. A criação com apego e a neurociência: O que é maternagem consciente. In:____. OLIVEIRA. T;B. O livro da maternagem. São Paulo: Schooba, 2012.


Clínica Espaço Equilibrium - 61 3964-2994 - CRP: 01/16202

Lisa Carla de Oliveira - Psicóloga e psicopedagoga. Atua com atendimento clínico infantil, acompanhamento terapêutico e orientação de pais. 

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Adaptação Escolar

1- Qual a idade adequada para uma criança começar a frequentar a escola?

A educação infantil contempla crianças de 0 a 5 anos. As crianças têm características biopsicossociais diferentes e isto, muitas vezes, pode ser determinante na escolha do momento adequado para inseri-las na escola. Por exemplo, nos casos em que há alterações no desenvolvimento, presença de fatores de risco ou de deficiências é necessário que a criança seja acompanhada desde o nascimento, nesses casos elas devem ser inseridas na educação precoce. Deve-se analisar, também, as especificidades do mundo contemporâneo, onde, por exemplo, os pais podem exercer diversas funções. Isso tem contribuído para a inserção da criança cada vez mais cedo no universo escolar, os pais necessitam trabalhar e as creches, por exemplo, podem tornar-se uma “solução” diante do desafio de administrar o tempo e a educação dos filhos. Caso as situações anteriores não ocorram, pode-se introduzir a criança nesse universo a partir dos 3,5 anos Nesse período do desenvolvimento a criança necessita entrar em contato com as experiências e estímulos que são proporcionados pela convivência na escola. Dentre os diversos aspectos a serem desenvolvidos, podemos citar a psicomotricidade, habilidades sociais, formas de expressão, comportamentos de autocuidado e organização, conhecimento da cultura, do meio ambiente e a convivência com a diversidade.

2- Como os pais devem se preparar para esse momento?

Os pais devem sentir-se seguros quanto ao momento e quanto à escolha da escola, isso não significa que não sentirão medos ou receios, afinal, o momento em que se decide “dividir” a atenção, o cuidado e a educação do filho pode ser doloroso, é um novo ciclo que se inicia e como quase toda mudança, pode haver resistências e dificuldades. Buscar referências de pessoas de sua confiança, conhecer a instituição observando o ambiente físico, a postura dos profissionais, seus objetivos, as atividades oferecidas, fazer questionamentos e perguntas acerca das ações que a escola executa em situações que podem ocorrer com as crianças, entre outros pode ajudá-los na escolha.

3- O que os pais podem fazer para preparar a criança para essa mudança na rotina?
Algumas crianças têm a oportunidade de ver os irmãos mais velhos indo para a escola e essa situação pode ser uma aliada à medida que, muitas vezes, a própria criança solicita sua ida também. Em outros casos os pais devem conversar claramente com a criança, explicando que ficará tudo bem, mostrando que muitas crianças vão para a escola, os pais podem fazer o relato de sua experiência pessoal no inicio da vida escolar, pode-se levar a criança na escola em que ela frequentará para conhecer o ambiente junto com os pais. É importante, nos primeiros dias, explicar-lhe como será sua rotina, onde os pais estarão enquanto ela estiver na escola e quem a buscará com o intuito de minimizar a ansiedade. Existem livros infantis que também podem auxiliar na conversa com a criança (LINARES, B. ALCY. E essa tal de escola? Como será? São Paulo: Salamandra, 2005.)


4- Qual é o papel da escola nessa adaptação?

A escola deve esclarecer as dúvidas dos pais, acolher e compreender os medos e a ansiedade tanto dos pais quanto das crianças, lembrando que, no caso dos pais, estes sentimentos não se tratam de uma desconfiança da escola e sim de uma necessidade que alguns pais têm para superar esse momento. Caso percebam que uma criança apresenta mais dificuldade em se adaptar, tente dar uma atenção especial, faça-a sentir-se segura no ambiente, convide-a para as brincadeiras, mostre que ela é importante e parte integrante do ambiente.

5- Como os pais devem agir caso a criança chore?

Os pais devem despedir-se e dizer para a criança que ficará tudo bem e que tudo ocorrerá do modo como eles combinaram. Nesse momento é importante que os pais não reforcem o comportamento de choro, isso pode ser feito, por exemplo, com a saída dos pais do ambiente. Se o choro servir como motivo para os pais permanecerem na escola, a criança aprenderá isso e sua adaptação será mais difícil e demorada. Ao sair da escola mesmo com a criança chorando, os pais estão indicando, de modo implícito, que lá é um lugar seguro e que ela pode permanecer ali.

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Lisa Carla de Oliveira - Psicóloga e psicopedagoga. Atua com atendimento clínico infantil, acompanhamento terapêutico e orientação de pais.