Desde
o primeiro dia de gestação, os pais são acompanhados diariamente por mudanças
que, quase sempre, geram desequilíbrio e consequentemente adaptação. Esse
início pode ser percebido, também, como um sinal de que, a partir de então,
além da pretensa intuição materna e paterna, muitos conhecimentos terão que ser
adquiridos e colocados em prática para o pleno desenvolvimento da criança e
para o bem estar da família. Quando a família começa a adaptar-se com as
novidades de uma fase, surgem outras que indicam novas mudanças e, novamente, a
ampliação do repertório comportamental dos pais.
Uma
das fases que pode ser bastante difícil de ser vivenciada é o período da
segunda infância (3 aos 6 anos de idade), onde as crianças necessitam ganhar
cada vez mais autonomia, começam a expressar-se com mais clareza e reivindicar
seus desejos com maior insistência. Como consequência, são apresentadas
demandas cada vez mais complexas aos pequenos, entre elas, ter que atender às
pequenas responsabilidades impostas pela escola, a necessidade de aprender a
executar os comportamentos de autocuidado que antes eram feitos pelos pais e o
desenvolvimento de habilidades sociais.
Frustrações
importantes serão vivenciadas nesse momento, e dessa vez, o desequilíbrio e a
adaptação também deverão fazer parte da rotina da criança. A frustração pode
ser entendida como um sentimento relacionado à dificuldade ou incapacidade de conseguir
alcançar o objetivo que se propôs e pelo qual se esforçou. Por exemplo, quando
a criança for colocada diante da primeira vez em que deve vestir-se sozinha, ou
ter que compreender que o que ela quer seus pais não poderão lhe dar, que ela
perdeu e o amigo ganhou, ou ainda, quando ela está com dificuldade para
aprender a escrever as letrinhas do seu nome. São frustrações importantes, pois
o modo como a criança aprende a responder à elas, seja adequado ou não, pode
tornar-se parte de seu repertório comportamental, e esse tipo de resposta pode
continuar sendo emitida em outras fases da vida, como na adolescência e idade
adulta. As tentativas para superar as demandas às quais ela está sendo exposta,
podem ser determinantes no modo de reação da criança diante de novas situações
frustrantes. Estas situações são marcadas por novas aprendizagens e autonomia,
mas também por comportamentos de irritabilidade, choro, medo de não conseguir e
esquiva que é a tentativa de não vivenciar a situação, para isso, a criança
pode solicitar que os pais façam por ela, ou adotar estratégias que a impedirão
de entrar em contato com a situação frustrante, por exemplo, fazer bagunça na
sala de aula nos momentos de aprender a ler e escrever.
O modo
como os pais reagirão à criança pode favorecer ou não à superação das demandas
e à exposição e persistência diante de novas situações que exijam esforços e
diversas tentativas. Motivar a criança a tentar, auxiliando-a e não a deixando
desistir, pode favorecer o aumento da resistência diante da frustração, o que
pode indicar que a criança não desistirá facilmente diante das dificuldades,
ganhará autonomia e amadurecimento e terá maior possibilidade de vivenciar as
fases do desenvolvimento psicológico infantil de modo adequado.
Para
alguns pais pode ser difícil reforçar na criança o comportamento de persistir,
diante do “sofrimento” que ela demonstra. Em algumas situações os pais deixam
de possibilitar ao filho essa experiência, por exemplo, fazendo aquilo que
poderia ser feito pela criança. Sena (2012) relata que não é possível controlar
quais genes serão passados para os filhos e, em termos de constituição
biológica, quais são os gatilhos bons ou não tão bons que estão prontos para
serem disparados, porém, podemos “no dia-a-dia, dentro de casa, nas
experiências cotidianas da família, selecionar ambientes e experiências aos
quais queremos expô-los ou não” para poder assim, favorecer a saúde
psicológica. Por isso, é importante que os pais tenham conhecimento do que se
pode esperar da criança em cada etapa do desenvolvimento biopsicológico, para
não deixar a criança com atrasos ou expô-la a situações que ainda são
inadequadas para ela. Para isso, se necessário, os pais devem consultar alguns
profissionais, como pediatras, psicólogos, pedagogos e fonoaudiólogos. O
conhecimento pode ajudar os pais a sentirem-se mais seguros em relação ao que e
ao modo como a criança deve vivenciar cada etapa.
O
desequilíbrio e a adaptação estendem-se a todas as etapas da vida e para um
desenvolvimento psicológico saudável é necessário que as frustrações não sejam
evitadas e sim vivenciadas com auxilio, suporte emocional e compreensão.
Referência:
SENA. L; M. A criação com apego e a neurociência:
O que é maternagem consciente. In:____. OLIVEIRA. T;B. O livro da
maternagem. São Paulo: Schooba, 2012.
Clínica Espaço Equilibrium - 61 3964-2994 - CRP: 01/16202
Lisa Carla de Oliveira - Psicóloga e psicopedagoga. Atua com atendimento clínico infantil, acompanhamento terapêutico e orientação de pais.

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