O
trabalho psicoterapêutico com o público infantil e seus respectivos
responsáveis mostra que não é incomum encontrar casos de crianças que dormem
junto com seus pais. Talvez seja uma afirmativa radical, estatisticamente
errônea ou restrita a alguns locais ou culturas, a de que “a exceção é aquela
criança que dorme em sua cama”, porém, é uma boa afirmativa para nos fazer
refletir sobre esse fenômeno. Além de ser uma situação comumente encontrada,
esta, nem sempre tem sido considerada como inadequada, pois nem sempre aparece
como demanda explícita para a psicoterapia. Em alguns casos só se tem essa
informação através do relato das próprias crianças quando expõem sua rotina.
Em
algumas situações esse comportamento é (re)pensado pelos pais somente quando os
profissionais de saúde e educação infantil descrevem uma série de desvantagens
que isso pode acarretar para o desenvolvimento de seus filhos e para a dinâmica
familiar.
O
comportamento de dormir com os pais pode exercer uma função no sistema familiar
podendo, por exemplo, servir como mantenedor de situações que, inicialmente,
podem parecer confortáveis para os pais e/ou para a criança.
Algumas
circunstâncias podem contribuir para que a criança tenha necessidade de dormir
com os pais, por exemplo, por medo ou por estar passando pela fase da angustia
de separação, que se caracteriza pela fase em que a criança percebe que existem
compromissos que ocupam a sua rotina e a de seus pais e por isso não é possível
ter os pais à vista a todo instante, então, a criança teme pelo
“desaparecimento” dos pais. A resistência em se adequar a novas situações
também pode contribuir, entre elas, a chegada de um irmão, a entrada na escola
e o ganho da autonomia, que podem ser percebidas pela criança como situações em
que não se terá mais tanta atenção dos pais ou por medo de vivenciar o
desconhecido. Com isso, o dormir na cama dos pais pode ser um sintoma, uma
tentativa de não enfrentar o novo e sim de manter as situações “antigas”.
Independente
do motivo parece ser mais prático e menos doloroso deixar a criança na cama dos
pais, assim não haverá choro e sofrimento por parte da criança e cansaço por
parte dos pais em ter que fazer diversas tentativas, muitas vezes frustradas,
para a criança ir para seu quarto.
Há
crianças que dormem com os pais por necessidade destes. Por exemplo, em casos
em que os pais não conseguem dar atenção ou companhia para os filhos durante o
dia, ou quando os pais se separam e um dos cônjuges necessita da presença do
filho ao lado para preencher um lugar que está vazio, o lugar do afeto, da
aceitação e do amor incondicional. Nesses casos alguns pais acreditam que estão
suprindo uma necessidade do filho, que está sem um dos membros em casa, então
necessita de uma “atenção especial” para passar por essa fase de transição até
a adaptação... que demora a chegar!
Há
situações em que esse comportamento pode ser um sintoma de problemas conjugais,
que muitas vezes permanecem “desconhecidos” ou “encobertos” pelo problema
“principal” já que a ausência de momentos individuais e íntimos entre o casal
não ocorrem porque o filho não quer sair da cama dos pais.
Independentemente
da função que este comportamento esteja exercendo, é certo que ele é
prejudicial a todos os envolvidos no fenômeno. A criança deixa de vivenciar
situações e sentimentos que são importantes para um desenvolvimento psíquico
saudável, entre eles, a autonomia, o enfrentamento e superação do medo, a compreensão
acerca dos limites e espaço de cada integrante da família bem como a
diferenciação das funções e dos papéis de cada um. Os pais perdem seus espaços
e momentos de individualidade, podem ter dificuldades em estabelecer limites
para a criança e reforçam, às vezes inconscientemente, sentimentos e
comportamentos inadequados dos filhos como, por exemplo, a dependência e a
insegurança, que certamente acarretarão dificuldades para os pais em relação à
educação de seus filhos.
Algumas
ações podem ajudar a criança a dormir em seu próprio quarto:
è
Arrumar o quarto com a ajuda da criança, perguntando sua opinião,
enfeitando-o com adereços à gosto dela, enfatizando verbalmente que aquele
espaço é dela, é onde ocorrerão suas atividades, como dormir, brincar, receber
os colegas;
è
É importante que a criança se sinta segura. Pode ser necessário que um
dos pais fique com o filho até ele dormir, leia histórias, faça carinhos,
massagens ou outra atividade que gere prazer para a criança, ela deve associar
esse momento com coisas prazerosas;
è
Coloque um abajur ou permita que, inicialmente, seu filho durma com a
luz acesa, com o passar dos dias diminua progressivamente a intensidade da luz.
è
Planeje uma noite do pijama com os colegas de seu filho, crie
expectativas acerca da arrumação de seu quarto e da diversão que acontecerá
naquele ambiente com os colegas;
è Não
permitir que a criança durma no quarto dos pais. Ainda que ela vá para o quarto
dos pais várias vezes, é importante que estes levem a criança de volta para sua
cama, quantas vezes forem necessárias, com o passar dos dias, o esperado é que
a quantidade de vezes diminua;
Se, depois de diversas tentativas,
não forem percebidos progressos por parte da criança, ou percebidas
dificuldades por parte dos pais, é necessária a busca de auxílio profissional.
Clínica Espaço Equilibrium - 61 3964-2994 - CRP: 01/16202
Lisa Carla de Oliveira - Psicóloga e psicopedagoga. Atua com atendimento clínico infantil, acompanhamento terapêutico e orientação de pais.